20 de Abril de 2009

Orientações euroasiáticas na política externa russa

Posted in Geopolítica Eurásica at 17:51 por revistarevolucao

ciari1Introdução

Uma das primeiras características da política externa russa, e que é invocada constantemente nas Universidades, é a preocupação que Moscovo tem em alargar e desbloquear[1] o seu território. Contudo, e se o nosso ponto de vista Ocidental apenas vê esse avanço como uma ameaça, raramente se observa o ponto de vista do outro lado, em que se visa atingir mercados e controlar potenciais inimigos. Uma explicação para este facto reside no desconhecimento que a maioria de nós tem relativamente à Rússia e ao seu passado, e na herança de 50 anos de Guerra Fria. Como exemplo, poucos de nós seriam capazes de imaginar que os russos viviam aterrorizados ante a perspectiva de um ataque da NATO ao seu território… Quanto ao tema em apreço, existe uma razão para a quase obessessão russa na expansão territorial e na quebra do isolamento. Uma razão que pode ser invocada reside no passado medieval russo, quando os principados, eternamente divididos por rivalidades, foram arrasados pelas hordas mongois que impuseram uma vassalagem opressora por mais de dois séculos. Ao mesmo tempo que os mongois, a Leste e Sul, impunham a sua suserania férrea, a Oeste os polacos, os suecos e os alemães ameaçavam a Rússia, enquanto lhe conquistavam território atrás de território. Apenas em meados do séc. XV os russos conseguiram livrar-se da ameaça mongol (e que, a esta altura, já era também muçulmana), deixando-lhes as mãos livres para lidar com os inimigos europeus. Ao mesmo tempo, impunha-se conquistar um grande e rico espaço a Leste, antes que alguém o ocupasse primeiro, e ter acesso ao mar, para garantir maior profundidade estratégica, evitar ameaças e atingir mercados. Como parte da política externa indispensável à projecção e consolidação do poder do Estado, havia que distender as fronteiras e controlar vias de acesso, nomeadamente as estepes e os grandes rios. A grande expansão territorial começou sob o reinado de Ivan IV, o Terrível[2], incentivando-se sob os Romanov, de Pedro I, o Grande a Alexandre II. Por fim, apesar da retracção territorial imposta em Brest-Litovsk, o Império Russo, sob a capa da URSS, voltou a alargar as fronteiras e atingiu a sua máxima extensão, sob Josef Stalin, em 1945. Desde o colapso da URSS, em 1991, voltou-se a registar uma contracção fronteiriça, desta vez em três áreas estratégias: Europa de Leste, Cáucaso e Ásia Central. A par desta ruptura interna, contracção e perda de poder externo, verificou-se uma profunda crise interna, não só político-económica, mas também psicológica, de sensação de perda, de mudança de valores, de destruição do status quo ante, que tinha prevalecido por mais de 50 anos. No entanto, lentamente, a Rússia tem-se erguido económicamente, mercê da injecção de capitais, de investimento externo e de uma economia capitalista que, mau grado a sua dureza e impiedade, tem conseguido reerguer o país. Em termos político-estratégicos, se no começo da desagregação da URSS, o Governo central não soube, não quis, ou não foi capaz de manter a integridade do Estado face aos surtos nacionalistas, a partir de meados da década de 90, com a situação interna a estabilizar, Moscovo começou a delinear os seus objectivos estratégicos e as suas áreas de influência vitais, incidindo estas, sobretudo, na Europa de Leste e no Cáucaso. De fora ficaria a Ásia Central, considerada de menor importância, como em seguida veremos. Quais as diferenças, em termos de importância e de políticas, entre o Cáucaso e a Ásia Central, para a política externa russa, eis então o objectivo deste artigo. Geografia De pouco nos servirá falar de uma determinada região sem que, em primeiro lugar, não se possa ter uma visão abrangente da área em estudo. Assim sendo, vamos começar por olhar para os mapas da Eurásia (ver mapa) e depois, para as áreas em questão. O Cáucaso é, desde sempre, uma rota de passagem de povos invasores provenientes da Ásia, os restos dos quais ainda se encontram nas montanhas e vales deste istmo, conferindo-lhe o aspecto de um quebra-cabeças étnico (ver mapa). Se observarmos, verificamos que, num sentido Norte-Sul, o Cáucaso liga o Sul da Rússia ao Norte da Turquia e do Irão, simultâneamente adversários históricos e actuais aliados potenciais. Por outro lado, num sentido Leste-Oeste, o Cáucaso bordeja o Mar Cáspio e o Mar Negro, sendo, portanto, o caminho natural e mais directo entre os produtos provenientes do Cáspio e da Ásia Central para um Mar que, até à bem pouco tempo, era mare clausum dominado pela Marinha soviética. Em termos de orografia, verificamos que a planície ao Norte, cortada pelo importante rio Terek, começa a subir gradualmente em direcção à cordilheira do Cáucaso, que corta o istmo em dois, culminando no monte Elbrus, o pico mais alto da Europa. A partir daqui começa uma região montanhosa que se estende, a altitudes variáveis, em direcção ao Sul, entrando dentro do Irão e da Turquia. Como temos dito, e tanto por causa do relevo como por causa da História, esta região é propícia à fixação de povos nas suas encostas e vales, garantindo-lhes uma certa protecção contra inimigos, mas provocando, também, um isolamento, um hermetismo que os protege de influências exteriores. Por esta razão, a região do Cáucaso é caracterizada, em termos étnicos, pela prevalência do elemento gens[3] em lugar da Nação. Isto tem bastante importância, e se olharmos para a História, podemos ver como a manipulação de uns auls[4] contra outros facilitou a conquista da Chechénia aos russos. A Ásia Central[5] é uma zona extensíssima e escassamente habitada[6], dividida em dois grandes elementos, que a caracterizam, quer sob o mero ponto de vista geográfico, quer sob o ponto de vista humano e económico (ver mapa). Ao Norte, abundam as estepes cazaques, propícias à pastorícia e à vida nómada, à criação de cavalos e às rotas caravaneiras. Contudo, à medida que nos deslocamos para o Sul, a paisagem de estepe passa a dar lugar ao deserto, onde só passavam as caravanas, e onde a ocupação humana era, e é, escassa, se não mesmo inexistente. Por fim, chegamos ao Sul, onde o deserto cede lugar às montanhas e cordilheiras, ao Pamir, ao Hindu Kush, ao Karakoram, aos Himalaias e ao Tien Chan, que constituem formidável barreira aos movimentos humanos e que, não fossem as ocasionais passagens, isolariam o Sul do Centro e Norte da Ásia. Aqui fica o coração populacional e histórico da Ásia Central, na zona das montanhas e dos ricos e férteis vales, propícios à sedentarização, à urbanização, ao comércio, às artes e ofícios e, em suma, à cultura. Aqui estão as origens dos Arios e as principais cidades históricas centro-asiáticas, como Bukhara, Khiva, Samarcanda, Tashkent, centros de irradiação da antiga cultura persa, misturada com o elemento turco proveniente das estepes que aqui se instalou entre os séc. IX e XI, e que também se tornaram importantíssimos centros de estudo islâmicos[7]. Pelas diferenças geográficas apresentadas, pode-se inferir, e constatar, que a ocupação humana na Ásia Central difere em igual medida, consoante a sua localização. O Cáucaso O controlo do Cáucaso é extremamente importante para a Federação Russa, e a sua perda poderá produzir, essencialmente, dois tipos de efeitos: Em primeiro lugar, temos o efeito a nível interno, ou seja, o sucesso de um movimento independentista no Cáucaso poderia originar um efeito dominó sobre as restantes Repúblicas e Regiões Autónomas com importantes minorias não eslavas. Assim, a uma eventual independência, digamos, da Chechénia, seguir-se-iam facilmente as da Ingushétia, da Adigueia, e do Daguestão, onde existem povos aparentados com os chechenos. Tais independências, mercê, inclusive, de uma componente de luta religiosa, como vimos no caso checheno, seriam altamente hostis a Moscovo (ao contrário das independências da Ásia Central), e expulsariam do Cáucaso a presença e influência russa. Ora, um eventual movimento independentista que atingisse todo o Cáucaso ameaçaria a integridade territorial do Estado russo, se se espalhasse para outras regiões com fortes minorias étnicas revindicativas, como é o caso do Tatarstão. Em compensação, e para estabelecer a comparação com as independências da Ásia Central, podemos usar o mapa étnico da Federação Russa onde se constata que as regiões siberianas que fazem fronteira com o Cazaquistão são, maioritáriamente, habitadas por russos, o que torna mais difícil um movimento sessessionista, apesar das pressões que possam vir do exterior para que tal aconteça[8]. Em segundo lugar, temos as consequências a nível externo, ou seja, a perda irremediável de uma forte posição estratégica que hoje em dia é, pelo menos parcialmente, mantida, e a capacidade de influenciar os acontecimentos na Transcaucásia e de controlar os avanços dos seus inimigos/parceiros meridionais históricos, o Irão e a Turquia. Tal situção é incomportável para um país que deseja manter um nível de poder o mais aproximado possível com os EUA e que se deseja manter como a principal potência na região. Presentemente, a Rússia tem capacidade de influenciar os seus vizinhos, quer através de políticas de alianças, como é o caso da Arménia, quer através de políticas mais hostis, como é o caso da Geórgia, onde a recente disputa por causa da situação no desfiladeiro de Pankisi[9], assim como a situação da Abkhazia, são mero exemplo. Segundo Aleksandr Dugin[10], a manutenção do Cáucaso é um imperativo para a Rússia, e em caso algum ela pode perder a sua posição para outra potência, ou sequer permitir que esta lhe tente tomar o lugar. O Cáucaso é um importante ponto de passagem entre a Europa e a Ásia, é uma das mais importantes pontes euroasiáticas[11], e a sua posse permite controlar uma importantíssima rota de pessoas, bens e matérias-primas[12], quer no sentido Norte-Sul, quer no sentido Leste-Oeste. A importância económica e política do Cáucaso não é, assim, de desprezar, e o seu controlo torna-se, por isso, essencial. A Ásia Central Se relativamente ao Cáucaso, a Rússia tem prosseguido uma política tendente a manter uma posição de destaque ou mesmo de liderança, ainda que à custa de guerras ou de conflitos com estados recém-independentes, é surpreendente que, em relação à Ásia Central, a actuação por parte das autoridades russas seja quase radicalmente diferente, ou seja, uma política de reconhecimento da nova realidade, de acomodação, de diálogo, sem levantar grandes questões e sem conflitualidade. Tirando as tropas no Tadjiquistão e os interesses económicos instalados, dir-se-ia que Moscovo está ausente da Ásia Central. Mas se observarmos bem, podemos escrutinar as razões para tal. Em primeiro lugar, e segundo a opinião do polítólogo A. Dugin, a presença russa nesta área, de momento, não é essencial, desde que, naturalmente, não haja uma ocupação do vazio deixado pelos russos por parte dos EUA. Para Dugin, as independências nesta região são uma mera realidade transitória e os países saídos deste processo são apenas “espaços de integração” pois, na realidade, a Ásia Central nunca foi um fim em si mesmo, mas sim um meio, um mero ponto de passagem para a Índia e o Índico[13]. Para se chegar à Índia por terra, havia duas rotas que os russos poderiam tomar: ou através da Pérsia, ou através da Ásia Central. A primeira opção implicava a destruição dos persas, ou conseguir um acordo comercial e de passagem com eles. O início do séc. XIX viu as jogadas diplomáticas inglesas para impedir que tal se pudesse suceder. A outra rota passaria obrigatoriamente pela Ásia Central que, bem depressa, as armas russas, viriam a controlar[14]. Contudo, a passagem para a Índia era dificultada por dois factores, qualquer um de peso: a presença britânica, e a orografia. Se por um lado, a presença de tropas britânicas aumentava o risco de uma confrontação militar russo-britânica, não é menos verdade que as montanhas da Ásia Central e do Afeganistão constituiam uma barreira formidável contra a expansão de qualquer potência, fosse ela a Rússia ou o Reino Unido. Na realidade, não só a progressão de uma força expedicionária seria dificultada pelo ar rarefeito, pelas temperaturas extremas e pela desolação deste tipo de terreno, como as diversas tribos que ainda hoje as habitam eram conhecidas pela sua belicosidade, como os ingleses o bem constataram por três vezes. Quanto ao acesso ao Índico, este seria um belíssimo prémio para a expansão russa, e que lhe permitiria quebrar o isolamento continental a que era votada por força da geografia. Do mesmo modo que os russos bateram os suecos para chegar ao Báltico, e os turcos, para chegar ao Mar Negro e ao Bósforo, as várias guerras russo-persas poderiam dar aos primeiros a possibilidade de atingir o Índico ou, pelo menos, o Golfo Pérsico, atingindo assim mares quentes e livres, por onde pudessem continuar a sua expansão, quer territorial, quer mercantil. Mas, mais uma vez, encontraram a oposição britânica a este plano, que, em meados do séc. XX, seria substituída pela oposição norte-americana, ávida em assegurar para si o Rimland e evitar qualquer interferência soviética nesta região. A guerra no Afeganistão, entre 1979 e 1988, foi o palco destas duas políticas, uma, de expansão em direcção ao Índico, e outra, de contenção a todo o custo das forças soviéticas. Por razões geográficas (aspereza da orografia e do clima) e políticas (a firme oposição de Londres), a expansão russa na Ásia Central e o chamado “Grande Jogo” terminaram, por tratado, em 1907, e desde então a Ásia Central ficou adormecida, só voltando a sua importância a despertar nos anos 90 do século XX e, para a opinião pública, após o 11 de Setembro de 2001. O processo das independências na Ásia Central, realizado em 1991, apanhou os dirigentes centro-asiáticos de surpresa. Na realidade, devido à enorme dependência entre esta região e a Rússia, relação herdada dos tempos soviéticos, os membros dos orgãos locais do PCUS não estavam interessados em romper laços tão estreitos. Contudo, efectivadas as independências, a proximidade manteve-se, e a Rússia continuou a encarar esta, e outras regiões, como o “estrangeiro próximo”, potencialmente controláveis e integráveis, de acordo com o seu “Conceito da Política Externa da Federação Russa”, de finais de 1992[15], que se baseava nos seguintes princípios: (1) aprofundamento da cooperação política, económica e militar com os NEI dentro da estrutura da Comunidade de Estados Independentes (CEI), ou numa base bilateral; (2) alargamento e reforço da estrutura da CEI; (3) assinatura de acordos de protecção dos direitos de cidadãos russos residindo nos NEI; (4) protecção colectiva das fronteiras da CEI; (5) formação de forças de paz da CEI.[16] Contudo, em virtude da sua fraqueza político-militar e da ineficácia parcial dos acordos assinados com os Estados centro-asiáticos, Moscovo percebeu que a melhor maneira de controlar a região e de evitar a aproximação entre estes países e o “Ocidente”, ou a China, seria a de enveredar pelo controlo económico, pelo controlo dos recursos e dos meios de comunicação, e pela manutenção da população russa residente, como forma de manter os laços. É esta a política actualmente seguida pela administração Putin. Contudo, como se sabe, os acontecimentos posteriores ao 11 de Setembro alteraram substancialmente os pratos da balança. Ora, sob um ponto de vista meramente geo-estratégico, parece incongruente que a Rússia pretenda manter uma presença hegemónica na Ásia Central e, ao mesmo tempo, aceite a presença norte-americana nesta região. Ao ceder políticamente aqui, a Rússia pereceu abdicar de importantes recursos energéticos e de um território que, como o seu próprio nome indica, é geográficamente central. Contudo, ao desistir aqui, Putin jogou a cartada europeia, ou seja, apostou no apoio que lhe seria dado pelos EUA e seus aliados na NATO, na UE e na OMC, em troca do apoio russo na “guerra contra o terrorismo”. No campo europeu, contudo, estamos ainda para ver que resultados esta política terá. Quanto à presença maciça de tropas norte-americanas no Uzebequistão e no Quirguizistão, esta foi encarada como uma “traição” por parte dos EUA relativamente à Rússia, uma vez que aqueles somente para ali se deslocaram na condição de se manterem por pouco tempo. Na realidade, os EUA não só reabilitaram antigas bases soviéticas e as prepararam para uma presença significativa das suas tropas, como já declararam ter vindo para ficar por alguns anos. Assim, num só golpe, a thalassocratia americana conseguiu controlar parte do Heartland e contribuiu para o isolamento da Rússia relativamente à Ásia do Sul, que seria completo se não fosse a presença das tropas fronteiriças de Moscovo no Tadjiquistão[17], e os laços que esta mantém, quer com a Índia, quer com o Irão o que, aliás, não deixa de azedar as relações russo-americanas. Contudo, não nos podemos esquecer que, pelo menos por enquanto, as relações político-económicas entre a Rússia e os países da Ásia Central, principalmente com o Cazaquistão, mantém-se fortes, e é provável que, com a recuperação económica russa, esses laços se venham a fortalecer[18][19]. Contudo, e no que diz respeito aos recursos energéticos, a estabilização do Afeganistão permitiria escoar os hidro-carbonetos centro-asiáticos para o Índico, via Paquistão, o que seria de todo o interesse para os EUA, porque poderiam impedir assim o acesso da Rússia a esses importantes recursos. Esta é a grande batalha a ser travada, e não tem ainda vencedor à vista De qualquer modo, e segundo relatórios provenientes da Stratfor e de algumas agências russas e indianas, citadas pela Securiry Watch[20], a presença norte-americana no Afeganistão está a revelar-se problemática (entre 300 e 400 mortes entre as suas forças, muito para além das admitidas 40 baixas mortais)[21], para além da falta de resultados em eliminar o movimento taliban e a Al-Quaida, e trazer a necessária estabilidade ao país. Além disso, existe um descontentamento crescente por parte das populações da Ásia Central relativamente a esta presença estrangeira dentro das suas fronteiras. Também nesta frente, estamos ainda para ver o resultados. Conclusão Em termos sucintos, temos de dizer o seguinte: para a política externa russa, o Cáucaso é essencial, e a Ásia Central não o é. O controlo do Cáucaso por parte dos russos permite-lhe, simultâneamente: 1- controlar uma importantíssima rota de pessoas, bens e matérias-primas, quer no sentido Norte-Sul, quer no sentido Leste-Oeste; 2- estabelecer uma ponte importantíssima entre a Europa e a Ásia; 3- controlar os avanços dos seus inimigos/parceiros meridionais (Turquia e Irão); 4- evitar o isolamento geográfico face ao Médio Oriente, e o relativo isolamento nos mares Negro e Cáspio; 5- evitar o desmembramento da zona Sul da Federação Russa, por via de movimentos separatistas de cariz étnico-religioso. Em compensação, a Ásia Central, apesar de importante devido aos seus recursos imensos, não tem um cariz tão vital. Por um lado, a Rússia não se considera mais isolada por ter perdido estes territórios. Por outro, as matérias primas e os diversos produtos desta imensa área terão de ser escoados, obrigatóriamente, ou via Afeganistão, ou via Cáucaso, sendo que esta última via parece ser preferencial, por se encontrar mais próxima do consumidor final, o mercado europeu. E por fim, e talvez mais importante, as independências das Repúblicas centro-asiáticas não ameaçaram, de forma alguma, a integridade do Estado russo, e não parece haver perspectivas que isso alguma vez venha a acontecer. A actual política russa para a Ásia Central rege-se por uma aproximação constante e uma convivência com os regimes, quer autocráticos, quer de cariz mais democratizante, que se instalaram na região após 1991, e que são herdeiros do aparelho soviético. A aposta no Cazaquistão, onde reside uma importante minoria russófona, e onde existe uma forte interdependência comercial face à Rússia, assim como a aposta no Tadjiquistão, onde Moscovo mantém um importante dispositivo militar, a par das diversas iniciativas de cariz político, será o suficiente para os russos manterem uma presença eficaz e a longo prazo na zona, mau grado a recente intervenção norte-americana na região, sob a “desculpa” da “Guerra contra o terrorismo”. Posto isto, não sabemos, nem queremos tentar especular, quanto tempo se manterá a presença norte americana na Ásia Central, ou que sucesso terá a política de Washington relativamente ao Cáucaso. No entanto, creio ser perfeitamente natural que a Rússia pretenda voltar e exercer a sua influência, se não directa, pelo menos política e económicamente, sobre duas regiões que tanto lhe custaram em vidas humanas para conquistar. E aqui, como diria Mahbub Ali, here begins the Great Game.[22] [1] Para o efeito, o território russo é o que se designa por “landlocked country”, ou seja, país sem saída para o mar. O facto de, no mapa, podermos ver uma Rússia com saída para o Báltico, o Mar Branco ou o Pacífico, esconde o drama que é para a marinha russa ter de lidar com gelo que isola, ou pelo menos dificulta a saída de uma esquadra para o mar durante quase 5 meses por ano. [2] A partir deste período teve início a espansão terrotorial russa, começando com a conquista de Kazanh e Astrakan aos tártaros, o que permitiu o controlo de todo o curso do Volga, e continuando com a conquista da Sibéria, uma das maiores aventuras humanas e que, tirando a expedição de Yermak e os seus cossacos, está ainda por contar. [3] Nos dias de hoje a designação gens é frequentemente subtituída pela de clan. Não nos parece necessário optar por uma designação escocessa quando ela existe em latim, língua que nos é mais próxima. [4] Aldeia, em checheno. [5] A designação “Ásia Central”, que actualmente entrou no vocábulo comum, apresenta alguma incomodidade, tanto em termos políticos como em termos geográficos e é, na sua abrangência, de adopção recente. Com efeito, normalmente esta designação é dada à região abrangida pelos actuais Turquemenistão, Uzebequistão, Tadjiquistão e Quirguizistão e que, antes da Revulução de 1917, era simplesmente designada de Turquestão Russo. A partir da reorganização estalinista, adoptou-se o termo Crednyaya Aziya ou, literalmente, “Ásia do Meio”, para designar esta zona. De destacar que o Cazaquistão sempre esteve à parte nestas designações. Só em Janeiro de 1993, em Tashkent, é que os Presidentes das antigas Repúblicas soviéticas acordaram o termo Tsentralnaiya Aziya para designar o conjunto dos cinco países. [6] Uma área de tamanho similar ao da Índia habitada por cerca de 50 milhões de pessoas. [7] Diz-se que em Bukhara, em 1790, viviam cerca de 30 000 talibs, o que atesta bem a força do Islão nestas paragens. Vide ROBINSON, Francis, Mundo Islâmico. Esplendor de uma fé, Lisboa: Círculo de Leitores, 1992, p. 106. [8] Ver BRZEZINSKY , Zbignew, The Grand Chessboard. American Primacy and its Geographic Imperatives, New York: Basic Books, 1997. [9] Este desfiladeiro, situado no Norte da Geórgia, é uma área habitada pelos kists, parentes dos chechenos e ingushes, e singularmente isolada do restante território nacional, pelo que Tblissi não exerce aí nenhuma autoridade. Recentemente, com a ofensiva russa na Chechénia, o desfiladeiro de Pankisi tornou-se um porto de abrigo para os boiviki (combatentes chechenos), que prosseguem as suas actividades contra as tropas e polícia federais em total impunidade. Esta situação, juntamente com a da Abkhazia (região georgiana independentizante que goza da protecção de Moscovo) tem vindo a azedar as relações russo-georgianas. [10] Entrevista feita a 15 de Março de 2002, nos escritórios do Movimento Eurásia, em Moscovo. [11] Este facto é reconhecido a ponto da UE ter criado o programa TRACECA (Transport Corridor europe Caucasus Asia), no âmbito do Programa TACIS. Ver http://www.traceca.org [12] Ver também o artigo de SPECTOR, Regine A., “The North – South transport corridor”, Central Asia – Caucasus Analyst, Wednesday, July 3, 2002 [13] Ver HOPKIRK, Peter, The Great Game. On secret service in High Asia, Oxford, Oxford University Press, 2001 [14] Para um breve resumo destas campanhas militares, ver BODER, D.I., Todas as guerras da Rússia, Moscovo: Gramotei, 2001. NOTA: livro em russo. [15] Ver ZVIGELSKAYA, Irina, The Russian Policy Debate on Central Asia, London: Royal Institute of International affairs, 1995. [16] TANRISEVER , Oktay F., Russia end the independent Turkic States: discovering the meaning of independence, http://www.tika.gov.tr/main_e/etud/6.htm , 16/11/2001. [17] Com fortes posibilidades dessa presença crescer, através da abertura de uma nova base russa, no âmbito do Acordo de Segurança Colectiva (assinado a 15 Maio 1992 em Tashkent), de que o Tadjiquistão é parte contratante. Ver “Kyrgyzstan concerns over new CIS base”, IWPR’S Reporting Central Asia, No. 129, Part I, July 12, 2002. [18] “Moscow steps up central asian interests”, IWPR’S Reporting Central Asia, No. 125, Part I, June 21, 2002 [19] Contudo, segundo Tanrisever (op. cit.), ao conseguir um pleno desenvolvimento económico, através do investimento externo, e ao libertar-se da dependência relativamente a Moscovo, os países da Ásia Central poderão prosseguir uma política económica verdadeiramente independente. [20] Security Watch de 17 Setembro 2002. [21] Evidentemente, o controlo da informação por parte dos EUA e aliados não permitirá confirmar o número exacto de vítimas. De igual modo, o resultado dos combates travados difere muito, consoante a fonte, e será difícil distinguirmos a verdade da propaganda. Citamos, a título de exemplo, as diferenças patentes em Raids hors-serie nº 7. Les forces especiales en Afghanistan, e Operation Anaconda or Operation Giant Mongoose? em http://www.qoqaz.net. [22] In KIPLING, Rudyard, Kim, London, Penguin Books. 1994, pág. 197. Filipe Santos Martins Sem Data Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais

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