20 de Abril de 2009

Escudo Antimíssil Balístico na Europa

Posted in Geopolítica Atlantista, Geopolítica Eurásica às 18:36 por revistarevolucao

armandojdiasferreiraThe major deterrent [to war] is in a man’s mind. The major deterrent in the future is going to be, not only what we have, but what we do, what we are willing to do, what they think we will do. Stamina, guts, standing up for the things we say – those are deterrents.

Almirante Arleigh Burke, 3 de Outubro de 1960

Desde há um ano que assistimos a uma dialética entre os EUA e a Federação Russa (FR) a propósito da intenção norte‑americana de instalar na Europa um “escudo antimíssil”. Será que estamos à beira de uma crise internacional como a que ocorreu em 1963, com a tentiva russa de instalar mísseis balísticos em Cuba? Que mudanças estratégicas estão em curso?

O QUE É PRETENDIDO COM O SISTEMA DE DEFESA ANTIMÍSSIL NA EUROPA?

O sistema previsto para a Europa consiste na instalação, em 2011, de um poderoso radar da banda X na República Checa e, na Polónia, em 2011-2013, uma base de intercepção com mísseis Patriot PAC-3 (Patriot Advanced Capability), especialmente desenhados para interceptar mísseis balísticos e as suas ogivas.

Ilustração do funcionamento do sistema de defesa antimíssil que os EUA pretendem instalar na Europa.

Ilustração do funcionamento do sistema de defesa antimíssil que os EUA pretendem instalar na Europa.

Imagem elaborada com base em: http://www.mda.mil/mdalink/pdf/euroassets.pdf.

QUAL O PENSAMENTO ESTRATÉGICO NORTE-AMERICANO QUE SUSTENTA ESTE PLANO?

Os EUA não escondem os seus interesses, não pretendem abdicar da presença militar pelo mundo fora, aumentar a influência na OTAN, contribuir para a estabilização do Cáucaso e reforçar acções que evitem a proliferação de Armas de Destruição Maçica (ADM). Continuarão a defender os seus interesses económicos e, consequente, a implementação de multinacionais pelo mundo fora. Em simultâneo, gostariam de ver concretizado o acesso livre aos recursos energéticos, optando pela criação, se necessário, de redes de gasodutos e oleodutos que evitem a passagem ou dependência da FR. Por fim e não menos relevante, continuarão a cruzada de expansão da cultura Ocidental ao mesmo tempo que tentarão travar o crescimento da cultura Islâmica no Mundo.

O actual pensamento estratégico norte-americano identificou explicitamente dois estados que representam uma ameaça para os EUA: O Irão e a Coreia do Norte. A preocupação reside no facto destes Estados estarem empenhados no desenvolvimento de armas nucleares. A actual doutrina estratégica norte-americana baseia-se numa lógica de dissuasão pela retaliação ou pela negação. As modalidades de acção desta doutrina podem aplicar-se contra os Estados, que têm existência geográfica, mas dificilmente se aplicam contra terroristas. O pensamento norte-americano baseia as modalidades de acção na ameaça que representa um míssil balístico. Desta forma, a trajectória do míssil intercontinental ICBM é a chave para compreensão da lógica de Washington. Qualquer míssil lançado por parte do Irão com destino ao continente norte-americano terá de sobrevoar a Europa Central, é por isso que os Estados Unidos têm acordos pendentes para criar uma base interceptora na Polónia e uma estação de radar na República Checa. Da mesma forma, qualquer míssil norte-coreano terá de sobrevoar o Alasca, local onde os norte-americanos têm uma grande plataforma de interceptores.

A actual estratégia norte-americana realça a necessidade de modificação do conceito de dissuasão, partindo da constatação que as ameaças actuais são muito mais diversas e imprevisíveis. Considera, também, que os estados hostis têm demonstrado a vontade de aceitar riscos elevados na prossecução dos seus objectivos, exercendo o seu esforço na aquisição e desenvolvimento de ADM e respectivos vectores de lançamento, como um dos seus principais meios para atingir os seus fins. Assim, os EUA declaram o direito de responderem de forma esmagadora, recorrendo a todas as opções disponíveis (incluindo o recurso às forças estratégicas nucleares), em resposta a um ataque com ADM contra solo norte-americano, contra as suas forças no exterior ou contra os países amigos e aliados (dissuasão pela retaliação), por outro lado, a componente defensiva tentará evitar os efeitos desse ataque (dissuasão pela negação).

É CREDÍVEL A JUSTIFICAÇÃO NORTE-AMARICANA DE QUE SE TRATA DE UM SISTEMA DE DEFESA CONTRA MÍSSEIS IRANIANOS?

O Irão acredita que uma bomba nuclear altera a balança de poder no Médio Oriente. Israel deixará de ser o único Estado da região a possuir a arma dissuasora por excelência. Os estrategistas iranianos esperam usar a ameaça da bomba para o Irão aumentar a sua influên-cia na região e reforçar o seu patrocínio à frente anti-israelita e anti‑ocidental nos Estados do Golfo Pérsico.

A actual capacidade iraniana, em termos de alcance máximo de vectores de lançamento, situa-se na ordem dos 2.000 Km com os mísseis Ashoura e os Shahab-3.

O Irão ainda não tem a arma nuclear, mas está a desenvolver várias iniciativas para a desenvolver e para a poder projectar a grande distância.

Com 2.000 Km de alcance pode-se atingir alvos em Israel, meios americanos no Golfo Pérsico e áreas da Europa SE e SW.

Fica a pergunta, será que Israel aceita um vizinho com esta capacidade? (Só se de todo não o puder evitar).

ENTÃO QUAIS SÃO OS OBJECTIVOS APARENTES E OS REAIS?

Oficialmente, o “escudo” antimíssil balístico visa defender os EUA e grande parte da Europa contra a ameaça de mísseis balísticos lançados do Médio Oriente. Os EUA beneficiariam com a muito maior protecção contra ataques originados no Médio Oriente, enquanto a Europa ganharia defesas que actualmente não tem. A OTAN centrou-se no desenvolvimento de defesas antimíssil de curta distância, pelo que a iniciativa dos EUA é complementar.

A única razão para o exagero dos EUA em relação à ameaça do Irão deve-se à intenção de validar o seu sistema de defesa antimíssil balístico. Os EUA insistem que o sistema pretende proteger os EUA e seus aliados do programa balístico do Irão, mas não parece haver nenhuma razão para o Irão tentar atacar os EUA, já que a resposta seria arrasadora para o Irão.

Os EUA têm várias razões estratégicas para instalar o radar banda X na República Checa e os interceptores na Polónia. A instalação do Sistema Antimíssil Balístico (BMD – Balistic Missile Defense) na Europa colocaria os EUA como protectores da Europa. Outra razão importante pode ser o seguimento de mísseis balísticos russos. Embora os EUA digam que a Rússia não é vista como um inimigo, temem um ataque acidental da Rússia. Isto ficou claro quando os norte‑americanos rejeitaram a proposta russa para instalarem os interceptores e o radar na antiga estação radar russa de Gabala (ou Qabala, Azerbeijão), a 250Km a noroeste de Baku. A proposta russa seria a ideal para efectuar o seguimento de mísseis balísticos lançados pelo Irão. A localização proposta pelos russos permitiria controlar o Irão, Turquia, China, Paquistão, Índia e Iraque. A rejeição norte-americana levou a Rússia a concluir que os EUA querem, na verdade, efectuar o seguimento de mísseis russos.

Os russos não acreditam que os norte-americanos considerem os iranianos capazes de construir mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), muito menos que consigam atingir o continente americano. Isto sugere naturalmente que o “escudo” está virado contra a FR e não contra o Irão. Já há quem defenda a ideia que os norte-americanos pretendem instalar nos silos da Polónia, não mísseis interceptores, mas sim mísseis de médio alcance, capazes de alcançar alvos na parte europeia da Rússia.

Além do mais, o Tratado de 1987, entre russos e norte-americanos, sobre Mísseis de Curto e Médio Alcance proíbe mísseis de alcance entre 500 e 5.500Km. Isto não preocupa muito os EUA porque não têm inimigos no seu hemisfério. A situação para a FR não é igual, muitos países no perímetro das fronteiras russas já têm, ou estão a desenvolver mísseis de curto e médio alcance. Neste conjunto incluem-se Israel, Irão, Arábia Saudita, Paquistão, Índia, China e Coreia do Norte.

Isto dá à Rússia uma grande tentação para renunciar ao Tratado de Mísseis de Curto e Médio Alcance. Os mísseis de médio alcance instalados nos Urais e na Sibéria podem atingir qualquer ponto da Europa e da Ásia e ultrapassar o sistema norte-americano de defesa antimíssil na Europa Oriental, bem como os arsenais de mísseis dos países asiáticos anteriormente citados, sem ser necessário usar um valioso e caro ICBM.

O Tratado CFE (Conventional Forces in Europe) foi assinado numa situação geopolítica totalmente diferente e é actualmente, em grande parte, irrelevante. Há várias razões para o desagrado de Moscovo face à situação actual e que já levou a que Moscovo suspendesse, em 12 de Dezembro de 2007, a implementação do tratado. Acima de tudo, devido à “zona cinzenta” (“nova vizinhança” para os russos) no Báltico, já que a Lituânia, Letónia e Estónia não são pares do CFE e teoricamente podem ter no seu solo forças armadas próprias ou estrangeiras de qualquer dimensão. Do lado da OTAN não há ratificações do Tratado adaptado em 1999. A FR retirou todas as suas tropas de Geórgia e tem uma força muito pequena na Moldávia apenas para vigiar os enormes depósitos de munições do ex-Exército Soviético.

As queixas da FR sobre o Tratado CFE são justificadas, mas em grande parte teóricas. Na realidade, nem a FR, nem qualquer dos países da OTAN esgotaram suas quotas para quaisquer das cinco classes de equipamento, seja sob o “CFE velho” de 1990 ou o “CFE adaptado” de 1999. Os exércitos dos países bálticos e da Eslovénia, que não assinaram o CFE, são puramente simbólicos em tamanho e não há nenhuns contingentes estrangeiros nos seus territórios (excepto os quatro aviões de caça num aeródromo lituano, que rodam de seis em seis meses. Até recentemente foram F16 portugueses). Em nenhuma das cinco classes de armas limitadas pelo Tratado CFE a OTAN tem uma superioridade inferior a três para um em relação à FR, ao passo que a superioridade económica da OTAN sobre Rússia (em termos de PIB absoluto) é 30 vezes superior.

Desta forma, não é do interesse da Rússia abandonar o tratado, porque daria uma possibilidade teórica à OTAN de aplicar a sua superioridade económica em superioridade militar. Será que os países europeus da OTAN estão interessados numa nova corrida armamentista? Além do mais, se tal corrida for reiniciada, a Rússia retirar-se-ia do Tratado de Mísseis de Curto e Médio Alcance para compensar o seu deficit em meios convencionais. O reinício da produção de mísseis Pioneer de médio alcance não será um problema para a Rússia porque são muito semelhantes aos ICBM Topol (Mísseis Balísticos Intercontinentais), excepto no número de andares propulsores que em vez de três, são apenas dois.

QUAL a reacção da federação russa?

A instalação de sistema de defesa anti-míssil na Polónia e na República Checa irrita os russos praticamente desde o dia em que foi anunciada. Por um lado, a escolha de dois antigos membros do Pacto de Varsóvia lembra à Rússia a sua perda de influência na Europa de Leste. São também uma demonstração clara de que os EUA encaram a Rússia actual mais numa perspectiva de ameaça do que de aliada.

Alcance dos actuais vectores de lançamento do Irão e demonstração da ineficácia do sistema de defesa contra mísseis ICBM da Federação Russa. Os EUA referem que a velocidade de um míssil interceptor é igual à de um míssil balístico (6,3Km/s), pelo que o interceptor não consegue anular a ameaça.

No passado, cada vez que Moscovo se viu ameaçada por um actor externo, como consideram ser este caso do escudo antimíssil, tomaram sempre contra‑medidas eficazes para garantir a sua segurança e integridade territorial.

Ainda recentemente na cimeira de Sochi, entre os Presidentes da Federação Russa e dos EUA, que ocorreu depois da cimeira da NATO de Bucareste, as posições da Rússia quanto ao alargamento da NATO e ao sistema de defesa antimíssil não se modificaram. Esta posição foi assumida pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, em 9 de Abril em entrevista à rádio Ecos de Moscovo e ao diário Komsomolskaia Pravda. Por ele foi dito que “Nós faremos tudo o que pudermos para evitar a adesão da Ucrânia e da Georgia à NATO e para impedir um declínio dramático nas relações tanto com a aliança e seus membros líderes, como com os nossos vizinhos, o que seria inevitável em caso de adesão”. Disse também que “Não vejo que a NATO esteja pronta para entender as nossas preocupações. Vemos o desenfreado alargamento da NATO como um erro político grave. Não reforçará a segurança global”.

QUAL É O PENSAMENTO ESTRATÉGICO da federação russa?

A Federação Russa é um país imenso, com uma enorme riqueza, mas com um clima muito frio, com muita burocracia estatal, grande diversidade étnica e religiosa, muitos fluxos migratórios e população envelhecida. A governação de Putin conseguiu, apesar disso, reorientar o futuro da FR no sentido de um crescimento económico gradual, beneficiando, nomeadamente, do aumento do preço do petróleo.

O Presidente Putin iniciou um programa para repor o poder e a imagem que são devidas às Forças Armadas, que se encontram debilitadas desde a implosão da URSS.

Neste sentido, foi posto em marcha um programa de reforço de 4,1 triliões de rublos para o período de 2007 a 2015, destinado a modernizar as estruturas e os equipamentos militares, principalmente os que se relacionam com as Forças Nucleares Estratégicas.

Esta medida Presidencial, apoia‑se na ideia de relançar, simultaneamente, o crescimento do sector industrial.

Ao cumprir este programa, promove a “doutrina de defesa”, a segurança no interior da FR e reforça a sua estratégia de actor importante na consolidação da estabilidade mundial, respeitando, naturalmente, as regras e normas assumidas internacionalmente.

Quando a Rússia estava enfraquecida, pobre e ansiosa por se integrar no Ocidente não era um problema.

Exemplos de elementos do complexo sistema de defesa antimíssil balístico que os EUA estão a desenvolver.

Exemplos de elementos do complexo sistema de defesa antimíssil balístico que os EUA estão a desenvolver.

Mas a Rússia está de volta, rica e de “orgulho ferido”, procurando não juntar-se à Europa mas sim recuperar o estatuto de grande potência. A implosão da URSS, é o maior desastre geo-político do século XXI. Neste sentido, a FR procura recuperar a influência predominante junto dos Estados Bálticos e da Europa de Leste, bem com sobre a Ucrânia, Georgia e Moldávia e no resto do que a Rússia considera ser a sua tradicional esfera de influência. O problema é que parte desses antigos Estados são actualmente parte da Europa, sendo estes parte do que poderemos chamar de “nova vizinhança”.

QUAL PODER TEM ACTUALMENTE A federação russa?

De acordo com o Internacional Institute for Strategic Studies, em 2005-2006, as Forças Armadas tinham um efectivo de 1.037.000 militares, estando 395.000 no Exército, 142.000 na Marinha, 170.000 na Força Aérea e 250.000 na Logística (Comando e Apoio). As Strategic Deterrent Forces têm 129.000 militares, dos quais 11.000 estão na Marinha, 38.000 na Força Aérea, 40.000 nas Strategic Missile Force Troops e 40.000 nas Space Forces. Acresce a este número 415.000 Paramilitares. Quer homens quer mulheres ingressam no serviço militar com 18 anos de idade, cumprindo 2 anos de serviço, encontrando-se 20.000.000 na reserva obrigatória até aos 50 anos de idade.

A Marinha Russa tem 14 submarinos estratégicos de quatro tipos diferentes. Estes submarinos transportam 172 mísseis balísticos de lançamento do mar (SLBM) que podem transportar 606 ogivas nucleares. As Strategic Rocket Forces têm 452 sistemas de mísseis operacionais de quatro tipos diferentes, que podem transportar até 1677 ogivas. A aviação estratégica conta com 78 bombardeiros estratégicos que podem transportar até 872 mísseis de longo alcance.

Há um evidente esforço de renovação do poder militar russo, quer através de exercícios conjuntos de grande dimensão, que há muito não se realizavam, quer através da renovação do seu arsenal nuclear estratégico. Estas medidas são a reacção ao sentimento de “cerco” provocado pelo programa do “escudo” antimíssil.

QUAL A REACÇÂO DA EUROPA?

Para a Europa a condição de vulnerabilidade e insegurança é normal. Os europeus não estão habituados a ter muita discrição sobre as suas políticas de segurança, desenvolvem muito pouco debate estratégico, as comunidades de assuntos de segurança e defesa são pequenas e o poder militar não é uniforme nem relevante.

A Europa ainda não se deu conta que tem boas razões para estar preocupada. Durante a década de 1990 apostou demasiado na geoeconomia em detrimento da geopolítica. Reduziu drasticamente os orçamentos para a defesa, calculando que o hard power, num mundo dominado pela revolução da informação, fosse substituído pelo soft power. Em Bruxelas imaginava-se que o mundo se tornaria numa réplica da UE, e quando isso acontecesse, a União tornar‑se‑ia numa “superpotência pós‑moderna”. Durante a década de 1990 até foi assim, a Rússia estava prostrada e a Europa esteve livre para exercer uma enorme atracção, a que se juntava a promessa de segurança fornecida pelos EUA.

O imperialismo económico da Europa sobre a ex-URSS está actualmente bloqueado. A Europa está a braços com várias crises e com o alargamento à Turquia num impasse. Como se não bastasse, a Europa fomentou de novo o problema a Leste, renasceu a disputa de vários séculos entre a Rússia e os seus vizinhos próximos, assumindo a Rússia uma atitude nítida de potência imperalista do século XIX.

ESTAMOS PERANTE UMA CRISE INTERNACIONAL?

A crise internacional é um conceito de natureza dinâmica, materializada pela sequência de interacções, em que há o desenvolvimento da manifestação de posições e de respostas. Tais acções e reacções (que evidenciam o carácter dialéctico) dão-se entre vontades políticas fortes, nas quais uma parte atribui ao objecto de coacção um claro carácter de essencialidade e demonstra-o, seja pela declaração de intenções, seja pela resposta ou pelo desencadeamento do confronto.

O elemento conflitual está sempre presente em situações de crise, é ele que põe em evidência a pressão psicológica e a tensão que é exercida sobre os decisores. É necessário existir um conflito de interesses e ambas as partes terem a percepção desse mesmo conflito. Esta é uma condição “sine qua non” para que uma crise irrompa: a percepção de coacção de que uma parte está a ser alvo e a postura estratégica que mostre a sua resistência a essa coacção. Tudo se precipita quando uma das partes gera, age e produz uma situação considerada intolerável pela outra parte. Para o General Valença Pinto este facto “decorre do antagonismo existente” e corresponde a um “obstáculo à normal satisfação dos objectivos desse Estado”, porque é entendido como uma “ameaça à sua segurança ou aos seus interesses económicos fundamentais” ou pode ainda constituir-se como uma “afronta à dignidade e prestígio internacional”.

É este clima que recebe a designação de catalisador, ou, para ser mais preciso, de catalisador geral, a contradição que provoca o desafio, já que muitas vezes é possível identificar um catalisador específico, o acto individualizado que funciona como provocação, que corresponde à “última gota”, ou ao “pretexto próximo” do desafio. Constitui uma acção pontual que desperta a hostilidade e que se traduz na tentativa de um actor coagir outro pela ameaça implícita ou explícita da força. Este desafio marca o início da crise.

Caracterizando a situação actual, podemos dizer que existe um catalisador geral, que é a divergência de interesses muito significativos que decorre da intenção norte-americana de instalar um “escudo antimíssil” na Europa, junto à fronteira com a Federação Russa. Não podemos dizer que existe um catalisador específico, já que apenas tem havido uma dialéctica de linguagem e de acções sem ultrapassar os limites do aceitável pela outra parte. Estamos ainda longe da existência de um desafio (provocação) e também não existe a elevada probabilidade de guerra, para se caraterizar esta situação como uma crise internacional.

Também há que atender à evolução da conjuntura interna da FR, com um novo Presidente, e dos EUA onde se aproximam eleições presidenciais. Nestas circunstâncias é preciso saber se nos dois lados do Atlântico acreditam que se está a caminhar para uma nova Guerra Fria. As duas lideranças mantiveram em 2007 retóricas exacerbadas, embora cada vez mais contidas atendendo às eleições que se avizinhavam.

Apesar da previsível oposição da FR não é de antever a resistência, não‑aceitação ou oposição coerciva da FR em relação ao “escudo” antimíssil norte-americano. Não é assim espectável um choque entre o desafio e a resistência que gera a confrontação e que alguns autores consideram ser o “coração” ou “auge da crise”. Para se considerar uma crise bem gerida é preciso encontrar uma solução de contento para ambas as partes, sem que haja recurso à guerra.

Em resumo, pode-se dizer que o projecto norte-americano de instalação de um “escudo” antimíssil na Europa ainda não tem as características de uma Crise Internacional, mas há previsíveis acontecimentos que podem gerar o catalisador específico. Por certo, as desconfianças entre americanos e russos vão aumentar e vão-se radicalizar as palavras e as acções.

ANÁLISE ESTRATÉGICA GLOBAL

Uma análise estratégica oposta à iniciativa norte-americana defende a ideia que esta opção estratégica, que tem o apoio tímido da Europa, poderá vir a ser um erro estratégico profundo, já que a Rússia pertence à mesma matriz da civilização Ocidental, pela sua posição geográfica, pela abundância dos seus recursos naturais e pela extensão imensa das suas fronteiras.

Desenvolvimento de uma Crise Internacional, retirado de PINTO, Luís Valença (1987) – Notas sobre a teoria das crises; Pedrouços: IAEM, p.5.

Desenvolvimento de uma Crise Internacional, retirado de PINTO, Luís Valença (1987) – Notas sobre a teoria das crises; Pedrouços: IAEM, p.5.

A Rússia é a primeira barreira contra o expansionismo chinês, que não se deverá deter no Tibete e mais cedo ou mais tarde vai procurar expandir a sua influência à Ásia Central, encontrando aí, inevitavelmente a Rússia. Se tal vier a acontecer, o Ocidente (expressão lata que engloba as três Américas, a Europa, a Eurásia e uma parte significativa de África) deverá aliar‑se ao seu aliado natural que é a Índia (eterno rival da China, e logo, potencial parceiro do Ocidente) e apoiar a Rússia.

A postura norte-americana está a gerar força e poder entre defensores do movimento geopolítico “neo-eurosianismo” que defende que a única forma de contrariar a ingerência do Oeste no “estrangeiro próximo” russo é permitir o acesso russo a mares quentes. Este movimento liderado por Alexander G. Dugin, com a simpatia de Putin, associa num espaço geopolítico comum as potências continentais desde a Europa de Leste, Federação Russa, Cáucaso, Ásia Central, Índia e o Irão. Das iniciativas mais relevantes salientam-se o “Mercado Comum da Ásia Central” e a “Organização de Cooperação de Shangai”. Há para já um objectivo que é a promoção da “retirada das bases norte‑americanas” que se encontram na Ásia Central, aproximando, deste modo, não só a FR e a China mas também a China, a Índia e o Irão.

A Índia dá sinais de aproximação à FR, através de trocas comerciais e da encomenda de mais de 300 carros de combate, mas não deixa de se aproximar também dos EUA. Notícias recentes, da agência Reuters, de 27 de Fevereiro de 2008, dão conta do interesse da Índia e dos EUA unirem esforços no desenvolvimento do sistema de defesa antimíssil. Desta forma, a Índia não parece estar preocupada com a edificação de um bloco anti-americano mas sim na sua afirmação enquanto potência regional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A eficácia do sistema de defesa antimíssil balístico é quase nula perante um ataque em larga escala, com mísseis com múltiplas ogivas e muitos engodos.

Os EUA estarão por certo a apostar no desenvolvimento tecnológico que o projecto pode fomentar. Lembra-se, a este propósito, que o GPS é um produto da “Guerra das Estrelas”. Esta iniciativa não está a gerar mais segurança, pelo contrário está a conduzir a uma corrida ao armamento. Se bem que entre os EUA e a Rússia não se perspective uma crise internacional, que conduza ao conflito, já o mesmo não se pode afirmar em relação a outras rivalidades, nomeadamente entre a Índia e o Paquistão, ou entre a Rússia e os seus vizinhos. Não é difícil imaginar que as fricções ao longo da fronteira euro-russa resultem em confrontação. Por exemplo, uma crise por causa da Ucrânia, que quer aderir à OTAN, poderá originar um conflito com a Rússia; conflitos entre o governo georgiano e as forças separatistas da Abkhazia ou da Ossétia do Sul podem lançar um conflito militar entre Tiblisi e Moscovo. A Rússia já ameaçou que reconheceria a independência destes separatistas caso vingasse a independência do Kosovo.

A Europa pós-moderna dificilmente pode voltar a confrontar-se com uma grande potência, como no passado, e tudo fará para o evitar. Quanto aos EUA, qualquer mudança fundamental na sua política externa (pouco provável) terá que esperar pelas directrizes da nova Administração. Todavia, um eventual confronto da Rússia com a Ucrânia ou a Georgia irá abrir um mundo novo, ou talvez nos traga um velho mundo, uma reedição da história da Europa do século XIX. Muitos europeus ainda querem acreditar que estamos numa lógica estratégica dominada pela geoeconomia. Na verdade, ainda vivemos numa era em que geopolítica, competição pela segurança, não foi purgada das Relações Internacionais.

Neste ambiente de Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade (VICA) a balança de poderes está instável, o nosso mundo não é hoje mais seguro do que durante a Guerra Fria. Se adicionarmos à complexidade de relações as que vão ser geradas pelo fim do petróleo, podemos preconizar uma visão caótica de viragem civilizaciona.

Armando J. Dias Correia
Junho de 2008
Revista da Armada

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