20 de Abril de 2009

O Regresso da Rússia

Posted in Geopolítica Atlantista, Geopolítica Eurásica às 18:47 por revistarevolucao

flaviogoncalves01Há alguns anos, quase uma década se os contar bem, quando trabalhava como vigilante num dos estaleiros instalados à pressa na nossa ilha para levar a cabo a reconstrução depois do cataclismo de 98, recordo vivamente o surto de silêncio que surgia sempre que, normalmente no horário das refeições, surgia alguma notícia referente a Vladimir Putin na televisão – na altura presidente da Federação Russa – por parte da maioria eslava presente.

Sendo açoriano e não estando habituado a manifestações deste género, por terras lusas a atenção dispendida aos nossos governantes é praticamente nula, exceptuando o habitual maldizer dos cafés que já é mais um feitio muito nacional do que um defeito. O certo é que na altura fiquei com muito boa impressão dum presidente que inspirasse tanto respeito e interesse por parte dos seus cidadãos, creio que em Portugal tal coisa nunca ocorreu, embora recorde que ainda no meu tempo de escola primária talvez o Cavaco Silva… mas adiante.

O facto é que o mundo voltou a notar na Rússia com a sua mais recente manifestação de força na Geórgia, muitos cronistas e opinadores da imprensa nacional têm referido este “despertar russo” como algo súbito e inesperado eu, pela minha parte, há muito que o notava, para qualquer entusiasta da geopolítica e da ciência política era nítido que a actual situação internacional era insustentável, o mundo necessitava de um novo contrapeso às aventuras estadunidenses e a opção mais válida era a de sempre: a Rússia (embora a China se aproxime a passos largos do estatuto de potência mundial incontornável).

A Rússia tem manifestado a sua presença quase permanentemente, mas de modo subtil, aconselhando e desaconselhando, optando por manter um perfil mais baixo quando lhe convinha e sendo, também, piamente ignorada (as aventuras bélicas no Médio Oriente e as sanções ao Irão) pela comunidade internacional quando tal interessava.

A coisa não podia durar muito mais e a gota de água aconteceu na Geórgia, os EUA manifestam revigorar-se com a actual obamania, George W. Bush demonstrou durante os últimos anos o poderio militar à disposição do bloco único, Saakashvili providenciou, ingenuamente, a oportunidade da Rússia dar o troco: a horda russa derrotou por completo o exército georgiano em meras 48 horas – maior manifestação de destreza militar seria difícil!

Na verdade a Rússia não despertou, o mundo é que despertou para a Rússia, a próspera e moderna Rússia enfrentou os seus fantasmas czaristas e soviéticos e surge uma vez mais na cena internacional. Uma segunda guerra fria? Há quem a queira, não hajam dúvidas, o Ocidente endividado e enfastiado com os seus políticos precisa duma qualquer ameaça que entretenha a carneirada a caminho do matadouro e o regime russo, por sua vez, precisa de uma qualquer ameaça externa – depois de derrotados os oligarcas – que entretenha o povo e o distraia do controlo cada vez mais apertado que o Estado vai exercendo.

Flávio Gonçalves
19 de Setembro de 2008
Tribuna das Ilhas

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